8 de julho de 2007

A proletarização do magistério

Formação de docente atrai mais aluno pobre

Fato ajuda na democratização do ensino superior, mas gera discussão entre especialistas sobre qualidade da educação

Segundo ex-secretária municipal de Educação em SP, alunos mal formados têm mais chance de fazer curso menos competitivo

DA SUCURSAL DO RIO

A maior presença de alunos mais pobres na área de formação de professores mostra que esses cursos têm desempenhado um papel importante na democratização do ensino superior, mas leva também a uma discussão a respeito da qualidade da educação.
Guiomar Namo de Mello, que já foi secretária municipal de Educação em São Paulo e membro do Conselho Nacional de Educação, lamenta que os cursos para professores não atraiam alunos de maior nível socioeconômico.
"Professores com pouca base vão formar mal alunos na educação básica. Esses estudantes mal formados terão chances de entrar no ensino superior somente nos cursos menos competitivos, o que cria um círculo vicioso." Na sua avaliação, para reverter o quadro, não basta melhorar salários para que a profissão volte a atrair, no futuro, profissionais de nível socioeconômico mais elevado.
Ela sugere que as secretarias de Educação criem sistemas de certificação de competências e que os cursos, antes de entrar nas disciplinas de preparação para o magistério, façam aulas de reforço da formação básica.
"Um professor que dará aulas de primeira à quarta série não pode estudar só pedagogia e ser uma analfabeto em matemática. Além disso, ele precisa também ter clareza do que se espera dele. Um bom sistema de certificação de competências pode ajudar nesse diagnóstico e ajudar a corrigir suas falhas."
A presidente da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação, Márcia Aguiar, avalia que o perfil dos estudantes de cursos que formam professores é um reflexo da falta de uma política nacional para valorizar o magistério.
Para ela, é preciso aprovar um piso salarial nacional e um plano de carreira que sejam atrativos. A pesquisadora sugere também o aumento de vagas em licenciaturas em instituições públicas; maior investimento em bolsas estudantis, laboratórios e bibliotecas; e o estabelecimento de uma política de formação continuada articulada à formação inicial.
O economista Gustavo Ioschpe, autor do livro "A Ignorância Custa um Mundo", discorda de Aguiar. Ele afirma que o foco deve estar na reformulação dos currículos nos cursos de formação de professores, e não no aumento de salários. "Há dezenas de estudos que demonstram não haver relação entre o salário do professor e a qualidade do ensino."
"Os profissionais tendem a buscar carreiras com remuneração melhor e mais correlacionada à sua performance. Isso não ocorre no magistério, onde os aumentos salariais ocorrem por senioridade."
Ioschpe diz também que a queda do perfil socioeconômico do professor é um fenômeno internacional e está relacionado à emancipação feminina.
"Uma das poucas profissões que as mulheres de alto nível socioeconômico podiam seguir era justamente o magistério, o que dava a essa carreira profissionais muito competentes. Atualmente, no entanto, várias das mulheres desse grupo optam por outras áreas, como direito, medicina e jornalismo."
O economista sugere que o mais importante é melhorar a qualidade dos cursos de formação de professores, dando ênfase a práticas em sala de aula, como a aplicação de dever de casa, boa utilização do livro didático, avaliações constantes e uso eficiente do tempo em classe.
"Essas práticas, que têm resultados comprovados na melhoria do desempenho do alunado, não só não são ensinadas, como são vistas com grandes ressalvas por questões pseudo-ideológicas." (ANTÔNIO GOIS)

Publicado no Caderno Mais - Folha de S. Paulo, 8 de julho de 2007

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