30 de julho de 2007

O olho eletrônico da divindade monetária


A Grécia antiga orbitava em torno de idéias. O período medieval, da fé. O moderno, nas possibilidades (que hoje sabemos exageradas) da razão. Hoje, o paradigma é o mercado. "Consumo, logo existo". Vive-se para amealhar renda.O dinheiro tornou-se mais que símbolo do valor da mercadoria ou mediador das relações de troca. Impregnado de fetiche, como observou Marx, é o novo ídolo venerado, solenemente guardado no sacrário do sistema bancário e em honra do qual são sacrificados valores como a ética, o respeito às leis e até vidas humanas. Quem o possui sente-se introduzido no paraíso terrestre. Quem pena para obtê-lo, no purgatório. E quem dele carece, no inferno, marginalizado pela pobreza e condenado ao rol dos que padecem sob o peso sísifo das dívidas.

Não é fácil a família, a escola e a religião incutirem em crianças e jovens valores éticos numa sociedade que presta culto ao dinheiro e a quem o ostenta. As instituições que o administram - bancos e Bolsas de Valores - são catedrais estilizadas, cujas capelas se espalham pela cidade em rede de agências. Nelas não se ingressa senão possuído por aquela compunção de penitente rumo ao santuário, na esperança de bênçãos e curas. A porta é estreita como a de toda senda que conduz à salvação e à riqueza. Onipresente, o olho eletrônico da divindade monetária vigia cada um de nossos passos e gestos. Uma vez lá dentro, há que suportar a fila com a devoção de quem saldará suas dívidas, compensado pelo alívio de quem paga os pecados, faz oferendas a Mamon ou aguarda o milagre de ser contemplado com créditos e empréstimos. E o ritual exige, naturalmente, estar em dia com o dízimo, as taxas dos bancos.

A mídia exalta quem é bafejado pelas bênçãos da fortuna. E exclui a turba anônima condenada à pobreza. O que traz o dinheiro não é apenas o poder mágico de amealhar bens, conforto, segurança e prestígio. É, sobretudo, poder, a propriedade de impor a própria vontade às demais. Gente como Bill Gates, que possui bilhões de dólares impossíveis de serem usufruídos ainda que ele retornasse por várias reencarnações, não estocam tamanha fortuna por mera avareza, e sim porque ela o torna mais poderoso.

A riqueza substitui, hoje, o sangue azul. Outrora a nobreza ocupava o topo da pirâmide social. Ser monarca era questão de destino dinástico. Nascia-se nobre. Hoje é o dinheiro que entroniza a pessoa no poder e, passado de geração em geração, assegura a linhagem nobre. Basta uma oscilação da Bolsa para derrubar reis e coroar plebeus. Qualquer arrivista sem caráter pode brilhar na sociedade desde que possua muito dinheiro. "O dinheiro é o nervo da vida numa República e aqueles que amam o dinheiro constituem os alicerces mesmo da própria República", já dizia Poggio Bracciolini em 1428 ("Da avareza e do luxo").

Esse paradigma do mercado, associado à apropriação privada da riqueza, faz com que se fale tanto de negócios. Esquece-se que o vocábulo tem o sufixo ócio, como a indicar não ser sadio cuidar de negócios sem jamais reservar tempo ao convívio familiar, ao lazer, ao entretenimento, às amizades, ao aprimoramento da vida espiritual.

Sábios, nossos avós consultavam a Bíblia ao iniciar o dia. Seus filhos, o serviço de meteorologia. Hoje, consultam-se os índices do mercado financeiro. A saúde pessoal parece depender mais das aplicações rentáveis que da disposição física, mental e espiritual. E a relação com o dinheiro delimita o convívio social: quem o tem cerca-se de seus pares e afasta-se de quem o perdeu ou nunca o possuiu. Falir é perder prestigio e amizades. Estar endividado é, a olhos alheios, ter contraído uma moléstia contagiosa.

Como dizia o professor Milton Santos, não há futuro benéfico para uma sociedade que troca os bens infinitos pelos finitos. Como ensinar em casa, às novas gerações, valores que não sejam aqueles alardeados pelos operadores dos valores regidos pela Bolsa?

Frei Betto

(Publicado no jornal O Globo, em 11 de junho de 2006)

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