20 de maio de 2007

Cotidiano, música e engajamento


Compartilho com Lima Barreto uma concepção de arte que frequentemente é bombardeada, considerada ultrapassada ou demodé. Às favas com esse tipo de crítica, como o "mulato de "Todos os Santos", penso que a arte deve sim ter compromisso com a realidade em que vivemos, com as grandes questões do nosso tempo histórico, por que não?

É claro que não precisa ser um engajamento sem criatividade e que só consegue olhar para o cenário político. Não, não estou aqui defendendo a arte apenas como protesto, mas sim com engajamento. O escritor, o músico, o cineasta são antes de tudo homens de seu tempo e porque não buscar inspiração no mundo que nos rodeia? Assim, sem deixar de lado a poesia, qualquer expressão artística pode debruçar-se sobre os mais variados temas, sem ser necessariamente panfletária.

O antropólogo Roberto Da Matta, numa entrevista concedida ao programa de TV "Conexão Roberto D'Avila" em 2003, afirmava que a música no Brasil é responsável pela educação sentimental das massas. Talvez ele tenha razão, já que o país convive historicamente com o analfabetismo e o desprezo endêmico pela literatura. Assim, teria na sua MPB a expressão artística de maior alcance popular, transformando-se num típico fenômeno de massas.

Pois é da MPB que, vez ou outra, surge uma música capaz de traduzir uma época, o ambiente social de um período, a ética dominante numa determinada camada social. Há algum tempo fui fisgado por uma dessas músicas enquanto ouvia o rádio. A voz do intérprete soou desconhecida, mas a melodia e sobretudo a letra monopolizaram minha atenção.

Trata-se de Jay Vaquer, filho do americano Jay Vaquer que foi guitarrista de Raul Seixas, que no CD com o sugestivo nome de "Você não me conhece" faz uma crônica da detestável cultura de uma classe média moralmente falida que circula por aí ostentando a falta de escrúpulos desses tempos neoliberais ou defendendo a lógica do "quanto vale ou é por quilo?" (como sugere o cineasta Sergio Bianchi).

Como acho que a letra fala por si só, segue esse retrato tão fiel a muitas das pessoas com as quais infelizmente temos convivido nessa alvorada de um novo século.

Cotidiano de Um Casal Feliz

Jay Vaquer

Composição: Jay Vaquer

Ele manda em tudo, em todos
curte seu poder
E deixa a esposa em casa
pra brincar no treco
de qualquer traveco
em troca de prazer
vai saber porque...
E a esposa anda malhada
fez lipoescultura
e a falta de cultura
nunca foi problema
ela tem dinheiro
pra dar e vender
lê Paulo Coelho e seicho-no-ie
vai saber porque. . .ie

E eles têm escravos
disfarçados de assalariados
diariamente humilhados
e levantam cedo, se arrumam apressados
têm hora marcada pra falar com Deus

Alguém sabe dizer o que é normal?
Pode parecer tão natural


Ele guarda no H.D.
fotos de crianças nuas, pra tirar um lazer
Curte ver aquilo quando fica só
Ela conta os passos que dá no trajeto
entre a terapia e a boca do pó


E até pensa em adotar alguma criatura,
pode ser uma criança ou um labrador
Só depende da raça, depende é da cor
que pintar primeiro..
Ele faz como ninguém a cara de quem não sabe mentir
pode admitir pra ocupar o vazio da relação
mas com uma condição
não quer dar banho, nem limpar merda o dia inteiro


Eles foram ver o show da Diana Krall
que alguém falou que era genial
gritaram uhuuu do camarote
enchendo a cara de scotch

E eles têm escravos
disfarçados de assalariados
diariamente humilhados
e levantam cedo, se arrumam apressados
têm hora marcada pra falar com deus

Alguém sabe dizer o que é normal?
Pode parecer tão natural