3 de março de 2007

A pátria que quisera ter era um mito


No ano de 2001 conquistei o 1º Lugar no Prêmio Carioca de Pesquisa promovido pela Secretaria Municipal das Culturas do Rio de Janeiro. A premiação consistiu na publicação do livro intitulado A pátria que quisera ter era um mito: o Rio de Janeiro e a militância literária de Lima Barreto. Originalmente esse texto foi a minha dissertação de mestrado em História Social da Cultura, defendida na Unicamp, sob a competente e habilidosa orientação de Sidney Chalhoub, que brindou-me com o prefácio abaixo:


Prefácio de A pátria que quisera ter era um mito:

Revisitar Lima Barreto é sentir de novo o travo amaríssimo de seus textos, sempre escritos para inquietar, polemizar, lembrar aos leitores a barbárie social à sua volta. Denílson Botelho conduz-nos por duas décadas de crônicas do escritor carioca, organiza temas e problemas, faz-nos reler os textos por cima de seus ombros. Ao final do percurso, tem-se a impressão de que nada escapou ao fel daquele literato negro, neto de escrava, suburbano e pobre, mas muito disposto a dizer tudo o que havia a dizer sobre a sociedade de seu tempo.

De fato, a abrangência da crítica social de Lima Barreto, conforme registrada nessas crônicas, é impressionante. Ao abordar o estado das coisas públicas no início do século XX, desanca o caráter excludente das administrações da cidade, mais preocupadas em “pavimentar os areais desertos de Copacabana” do que em lidar com a miséria dos subúrbios; descreve as eleições como “uma época cômica”, em que candidatos ao parlamento buscam pistolões políticos, capoeiras e jagunços para tornarem-se “representantes” da nação; estranha a soberba de engenheiros, sanitaristas e outros técnicos do governo, que acham sua “ciência” uma espécie de “cochicho de Deus aos homens da Europa”, depois cochichada aos “europeus” da América; observa a promiscuidade entre poder e capital, ou entre governantes e empresários, para concluir que a república promove grande “comilança”. Impaciente, ousado, propõe solução “maximalista” àquela situação toda, declarando-se admirador da revolução russa de 1917. Assim, fustiga “burgueses” ao propor a abolição do direito de herança, pois que a propriedade deveria tornar-se “social”, cabendo a cada indivíduo apenas o necessário para manter a sua vida e a de seus familiares. Defende também o calote da dívida interna, o confisco de bens de ordens religiosas e a instituição do divórcio. Sobre a última medida, argumenta que no casamento burguês os homens consideram-se proprietários das mulheres, sobre quem arrogam-se até mesmo poder de vida e morte, constituindo-se tal instituição numa espécie de usina de uxoricidas.

A franqueza e o tom de desabafo quase constante fazem com que Lima Barreto seja às vezes bastante duro, até preconceituoso, com os próprios grupos sociais aos quais parece mais devotado. Irrita-se com a vizinhança suburbana: chusma de crianças a pedir-lhe favores, marmanjos solicitando-lhe a redação de cartas a namoradas, moçoilas a suspirar por versos e a deixar-se enganar por pilantras de vária espécie. Ademais, loucos por carnaval, ansiosos por desfilar no bloco “Rapaduras Gostosas”, para desespero do escritor, convencido de que as ditas haviam de ser amargas. Na verdade, mostra dificuldade em entender que tais pessoas podiam vez ou outra divertir-se apesar das privações e sofrimentos cotidianos. Ainda que devotasse ódio aos uxoricidas, é impiedoso com o movimento feminista do período. Parece achá-lo burguês, alienado em relação aos interesses das mulheres pobres. Não entende a luta das feministas para dar às mulheres o direito de trabalhar, de ingressar no funcionalismo público. Diz que elas haviam trabalhado sempre, “desde que o mundo é mundo”, e cita o exemplo de uma negra velha que encontrara outro dia numa fábrica de tecidos, a labutar ao lado de muitas outras mulheres. Talvez lembrasse da avó e de outras ancestrais escravas ao formular tais críticas. O fato, contudo, é que achava as moças incapazes para as tarefas das repartições públicas e opunha-se até mesmo ao voto feminino.

Ao fim e ao cabo, é possível discernir um fio condutor, um nexo talvez a costurar as mais diversas críticas de Lima Barreto à sociedade de seu tempo. Testemunha da queda da monarquia e das primeiras décadas de república, o escritor convenceu-se de que a troca de regime não acarretara qualquer mudança nas estruturas de reprodução de desigualdades e exclusão social no país –não transformara a “lógica da nossa sociedade”, como disse certa vez. Ao fechar o livro, Denílson Botelho explora com criatividade esse viés ao tratar da “superstição do doutor”. Não mais existiam senhores de escravos, porém hierarquias e poderes pertinentes a seu mundo persistiam, introduziam-se até em práticas e lugares os mais improváveis. Lima Barreto considerava as universidades verdadeiras “oficinas de enobrecimento”, a conferir pergaminhos e garantir privilégios “aos bem nascidos”. Estavam impregnadas de “um espírito de serviçal da burguesia rica ou dos potentados políticos e administrativos”. Opunha-se ao poder excessivo que os “doutores” acumulavam nos negócios do Estado, legitimados por uma “ciência” forjada “com tesoura e goma arábica”, a interpretar a realidade de modo fragmentário, infensos aos dramas da exclusão e da miséria. Havia novas ideologias a transformar preconceitos em conceitos científicos, a solapar o exercício da cidadania por descendentes de escravos, a renovar hierarquias e privilégios senhoris sem classe senhorial proprietária de escravos. Lima Barreto via o nexo de tudo aquilo, a lógica profunda que articulava os mais diversos, até ínfimos, aspectos da sociedade brasileira do início do século XX. Teve a coragem de testemunhar, de expor a sua interpretação. Errou decerto nisso ou naquilo, foi injusto com fulano ou beltrano, disse quiçá muitas sandices. Mas não se iludiu, nem deixa que nos iludamos.

Sidney Chalhoub