4 de agosto de 2017

Sobre a venda de "A pátria que quisera ter era um mito"


Quem tiver interesse em adquirir um exemplar autografado do livro, deve entrar em contato com Luciana Chagas, através do email:
luciana.almeida.das.chagas@gmail.com

Ainda temos alguns exemplares para venda sem cobrança de frete.

O livro também pode ser adquirido na própria Editora Prismas e nas livrarias Martins Fontes, Cultura, Amazon, Travessa e outras.

Repasse essa informação para eventuais interessados, por favor.

31 de julho de 2017

Impressões sobre a FLIP 2017

Aqui vão algumas observações sobre a FLIP, que pela primeira vez tive a oportunidade de acompanhar. Obviamente foi o homenageado desse ano, Lima Barreto, que pesou decisivamente para a minha ida a Paraty, depois de 20 anos sem pisar naquela cidade.

- Inicialmente devo confessar que estive a ponto de desistir de ir a FLIP, apesar de desejar muito participar dessa edição em homenagem a Lima Barreto. Quando comecei a pesquisar preços de hospedagem em Paraty para o período da FLIP, deparei-me com valores absurdos cobrados pelas pousadas, especialmente aquelas localizadas dentro do Centro Histórico. Já estava me convencendo de que a FLIP 2017 seria uma festa de brancos ricos para homenagear um preto pobre, quando descobri a Pousada do Alex, a cerca de 1 km do Centro Histórico. Não foi barato, mas deu para pagar e permitiu que eu fosse a FLIP. Alex é filho de Wanderley, carteiro na cidade, e está transformando aos poucos a própria casa numa pousada. Tem duas suítes para alugar por enquanto. São acomodações simples, mais muito bem cuidadas, confortáveis e com boa localização. Em 5 minutos eu chegava a pé à entrada do Centro Histórico. E Alex e Wanderley são bons de papo. Me senti em casa!

- Participando da ANPUH em Brasília na mesma semana, só pude chegar a Paraty na quinta-feira por volta do meio dia. Por isso perdi a abertura na quarta-feira. Se tem algo que me encantou na FLIP foi ver a enorme tenda na Praça da Matriz lotada de gente assistindo mesas – um bate-papo, na maioria das vezes – sobre literatura. Aquelas centenas de pessoas sentadas, em silêncio, acompanhando atentamente o que os convidados tinham a dizer sobre seus livros ou sobre literatura – e algumas vezes sobre Lima Barreto – me fez pensar no quanto existe um grande interesse por esse tipo de assunto. Interesse que, de modo geral, é desprezado pelos meios de comunicação. Por que a TV aberta não tem um programa em horário nobre sobre livros e literatura? Por que o rádio também não tem? Essa situação diz mais sobre os nossos meios de comunicação do que sobre a sociedade em que vivemos, que se interessa sim por cultura e literatura, por mais que certos jornais sejam grotescamente dirigidos a um espectador do nível Homer Simpson.

- Quem queria assistir às mesas dentro da Igreja Matriz de N. S. dos Remédios transformada em auditório, tinha que desembolsar R$ 55,00 por um ingresso. Lá dentro cabiam algumas dezenas de pagantes. Do lado de fora, na tenda, centenas de pessoas assistiam gratuitamente uma transmissão simultânea num telão de excelente qualidade. Com despesas de deslocamento até Paraty, hospedagem e alimentação, tive que ficar do lado de fora mesmo. Curiosidade de entrar na Igreja/Auditório não me faltou, faltaram os cobres mesmo! Uma ou outra mesa aconteceu num palco montado na tenda, em praça pública, gratuitamente para todos. Foi o caso, por exemplo, da mesa de sexta-feira, às 10 horas, com Lázaro Ramos e a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques. Não assisti a toda a programação da FLIP, mas esse me pareceu o ponto alto do evento, rivalizando apenas com a mesa de Noemi Jaffe e Scholastique Mukasonga, na noite anterior, da quinta-feira. Lázaro fez uma fala arrebatadora e contundente, demonstrando sensibilidade imensa para tratar do tema do racismo, até que a professora Diva Guimarães roubou a cena levando todos às lágrimas. A emoção diante dessa mesa foi tão grande que eu custei a ter forças para me levantar dali. Foi acachapante! Ficou evidente que seria muito melhor que todas as mesas fossem realizadas na praça, diante de todos, gratuitamente. Acho que a FLIP não deveria cobrar ingressos para um auditório VIP, porque o lugar da literatura é na praça, junto ao povo, como ficou bastante claro. Sobretudo porque lá fora foram muito mais calorosas as reações do público, que por diversas vezes riu, se emocionou, chorou e bradou sua indignação com inúmeros “Fora Temer”, “Fora Pezão” e “Fora Alckmin”.

- Foi um prazer ver Antonio Arnoni Prado comentando a obra e a trajetória de Lima Barreto, apesar da mediação dessa mesa não ter sido das mais competentes. Era nítido que o papel do mediador das mesas era levantar a bola para os convidados chutarem. Pena que nem sempre isso acontecia. Mas concordo que é difícil a missão do mediador numa ocasião como essa.

- Na noite de sexta-feira alguém na plateia projetava no fundo da tenda da praça os dizeres “Folha de S. Paulo apoiou a ditadura”. Não foram poucas as vezes em que o público se manifestou durante as mesas, enquanto lá dentro da igreja/auditório os convidados seguiam falando. Esse descompasso entre o que se passava dentro e fora da igreja só reforça a convicção de que o lugar da FLIP é na praça, não num ambiente fechado e restrito aos pagantes.

- Outro ponto alto da FLIP foi a participação do historiador baiano João José Reis, já devidamente noticiada. Sua fala em defesa das cotas raciais e sociais foi saudada pelo povo da praça com entusiasmo. João Reis mostrou com habilidade como o trabalho do historiador também pode passar pela militância e o engajamento. E seus livros são a melhor demonstração disso.

- Assisti à peça “Diários marginais – Um encontro com Lima Barreto e João do Rio”, da Oráculo Cia de Teatro. A montagem merecia ocupar um espaço mais nobre do que o auditório de uma escola estadual na entrada do Centro Histórico. Mas a FLIP parece regida por um circuito comercial do qual nem todos são chamados a participar. Ainda assim, o teatro resiste, promovendo encontros fantásticos com a força de seu talento.


- Por fim, vale dizer que Paraty continua encantadora e bem cuidada. Vagar pelas ruas do Centro Histórico até se perder – como se fosse possível se perder dentro daquele quadrilátero – nos transporta para outro tempo, por mais que a cidade esteja lotada de visitantes. Há restaurantes e bares de todo tipo. A única coisa que destoa são as lojas de grife (Richards, Farm, Kopenhagen, etc) alugando invasivamente aqueles imóveis coloniais. O lugar dessas lojas é fora do Centro Histórico, convenhamos! Ao invés de grifes de shopping, Paraty ganharia muito mais com uma sala de cinema e um palco para o teatro, que em tudo se somariam à sede da FLIP.

O que Lima Barreto pode ensinar ao Brasil de hoje


Em sua 15ª edição, pela primeira vez a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) homenageia em 2017 um escritor negro. A escolha de Lima Barreto é muito significativa para um país que se debate de forma conflituosa com a herança secular da escravidão. A polêmica sobre a relevância e a pertinência da adoção de cotas, entre outras ações afirmativas, é um indicador do quanto o racismo continua fazendo vítimas entre nós. Por isso, a homenagem ao escritor cumpre uma indiscutível função pedagógica.

Lima Barreto (1881-1922) viveu numa época de transições. No seu aniversário de sete anos viu a abolição ser festejada em praça pública na companhia do pai, registrando as lembranças do episódio em seu Diário íntimo. No ano seguinte, em 1889, viu a monarquia dar lugar à república. E passou a juventude e o resto de sua curta existência – faleceu aos 41 anos – enfrentando os desafios de ser negro num país que aboliu a escravidão, mas não fez com que a liberdade viesse acompanhada dos direitos de cidadania pelos quais temos lutado desde então. Da mesma forma, vivenciou também os desafios de uma república que se fez excludente, frustrando a expectativa por um regime democrático.

Não bastassem as adversidades enfrentadas por qualquer homem negro no pós-abolição, Lima Barreto se fez escritor e sua extensa e diversificada obra constituiu-se em precioso testemunho daquele tempo para as gerações seguintes. Quem quiser compreender o que foi o Brasil nas suas primeiras décadas republicanas, terá que percorrer obrigatoriamente a literatura produzida por esse autor, que olhava para o país a partir de um ponto de observação singular: os subúrbios, a periferia e os bares frequentados pelas camadas populares. Ou a partir de sua casa suburbana que, de modo sarcástico, apelidou de “Vila Quilombo” – para implicar com Copacabana e as elites.
            Mas por que devemos ler Lima Barreto hoje? São vários os motivos, mas um deles revela-se da maior importância. Nos últimos anos, os grandes grupos empresariais de mídia têm contribuído decisivamente para demonizar a política. A pregação de um discurso anticorrupção tem se revestido de um moralismo sem precedentes e, ao mesmo tempo, esterilizante. Muitos são aqueles que têm sido levados a recusar o debate político sob o argumento tolo, generalizante e perigoso que sugere que todo político é ladrão e corrupto. A estratégia abre espaço para a figura enganosa do “gestor”, que, fingindo renegar a política, governa para contemplar os interesses de poucos em detrimento da maioria.

O fato é que encontramos em Lima Barreto um vigoroso antídoto para lidar com essa situação, pois estamos diante de um escritor que fez da literatura a arte do engajamento. Escrever era para ele uma forma efetiva de participar dos acontecimentos. Os mais de 500 artigos e crônicas que publicou em dezenas de jornais e revistas do Rio de Janeiro – assim como seus romances e contos – não deixavam escapar nenhum tema importante em discussão na época. Lima não se esquivava do debate e muito menos de opinar e apresentar enfaticamente os seus pontos de vistas, geralmente urdidos com base nas leituras que fazia quase obsessivamente. Em síntese, escrever era fazer política, era participar da vida política do país e isso resultou numa literatura militante, que nos leva a perceber a centralidade da política em nossas vidas.

Ao mesmo tempo, já na sua estreia como romancista, ao publicar Recordações do escrivão Isaías Caminha, em 1909, Lima Barreto instigava o senso crítico de seus leitores em relação aos métodos e procedimentos do jornalismo, fazendo do romance uma denúncia contra a imprensa, aquele “engenhoso aparelho de aparições e eclipses, espécie complicada de tablado de mágica e espelho prestidigitador, provocando ilusões, fantasmagorias, ressurgimentos, glorificações e apoteoses com pedacinhos de chumbo, uma máquina Marinoni e a estupidez das multidões”.

O autor homenageado pela FLIP em 2017 tem, portanto, muito a nos ensinar sobre a importância de reconhecer a política como instrumento indispensável para a obra - que continua em curso – desafiadora de construção de uma república democrática. Inclusive sobre os desafios forjados por uma imprensa mais comprometida com a “estupidez das multidões” do que com a cidadania que tanto almejamos.

Denilson Botelho, historiador e professor da Universidade Federal de São Paulo. Autor de A pátria que quisera ter era um mito: história, literatura e política em Lima Barreto (Editora Prismas, 2017)

Fonte: Carta Educação, em 25 de julho de 2017

24 de julho de 2017

Um papo despretensioso sobre literatura na TV

Gravei uma participação num programa da TV Gazeta que foi exibido no dia 19 de julho de 2017. É o programa Todo Seu, conduzido e apresentado por Ronnie Von nesta emissora situada na avenida Paulista. Trata-se de um breve papo despretensioso sobre literatura, em que tive também a oportunidade de divulgar a publicação da 2ª edição do meu livro A pátria que quisera ter era um mito, pela Editora Prismas. Quem quiser conferir, pode assistir:


Lima Barreto foi uma das primeiras vozes a se opor contra 'matadores de mulheres'

Os chamados crimes passionais tiveram uma repercussão crescente na imprensa carioca, sobretudo a partir da década de 1910, quando se tornam objeto de forte preocupação social e passam a ser vistos como “algo particularmente ameaçador”, conforme assinalou a historiadora Susan Besse. A noção de “crime passional” ou “crime decorrente da paixão” começou a se difundir a partir das últimas décadas do século XIX com a emergência das novas tendências da “moderna Política Criminal” que se contrapunha aos pressupostos centrais do Direito Clássico, entre os quais o princípio de que a responsabilidade penal encontrava-se baseada na responsabilidade moral pautada no livre arbítrio.

Embora o Código Penal Brasileiro de 1890 estivesse nitidamente calcado nos princípios do Direito Clássico, o § 4o do artigo 27 incluiu entre os que não seriam considerados criminosos aqueles que se achassem em estado de “completa privação de sentidos e de inteligência no ato de cometer o crime”, entre os quais figuravam os/as criminosos/as que agiam sob o efeito das paixões (políticas, religiosas, amorosas etc.). Tal determinação ampliou e/ou redefiniu as possibilidades de absolvição ou de penalização leve dos (as) acusados (as) de crimes passionais, através da comprovação de que, agindo sob os impulsos quer da “duradoura paixão”, quer da “súbita emoção”, no momento do crime, apresentavam perturbações psicofisiológicas que os tornavam completamente irresponsáveis por seus atos.

Nas defesas destes acusados/as coube, pois, um papel fundamental às correntes da medicina mental que conferiam aos estados emocionais e passionais o status de uma verdadeira obsessão, equiparando-os a uma espécie de loucura, que poderia atingir momentaneamente indivíduos mentalmente sãos. Evaristo de Moraes tornou-se um dos advogados mais brilhantes e bem sucedidos na utilização do § 4º do Art. 27 do Código Penal de 1890 como dirimente dos crimes passionais.
Através das crônicas “Não as matem”, “Lavar a honra, matando?”, “Os matadores de mulheres”, “Os uxoricidas e a sociedade brasileira” e “Mais uma vez”, Lima Barreto foi uma das primeiras vozes que se opuseram à absolvição ou à condenação branda dos “matadores de mulheres” – os “uxoricidas”, como eram conhecidos na época. Segundo o escritor os costumes que conferiam ao homem o direito de matar a mulher adúltera eram “selvagens” e “bárbaros”.
Defensor do divórcio e crítico contundente do casamento, Lima Barreto acusava as feministas de não lutarem contra essa “ordem, que tende a se perpetuar entre nós, aviltando a mulher, rebaixando-a ao estado social da barbárie medieval, de quase escrava. Degradando-a a condição de cousa, de animal doméstico, de propriedade nas mãos dos maridos”. Além disso, ele reprovou duramente a conduta do advogado Evaristo de Moraes, não o perdoando por defender criminosos passionais, sendo ele o liberal, o socialista quase anarquista que inspirava tanta admiração.

O Código Penal Brasileiro promulgado em 1940 excluiu a referência à “perturbação dos sentidos e da inteligência” como dirimente da responsabilidade dos/as criminosos/as passionais. Mas, por outro lado, foi introduzida a figura do “homicídio privilegiado”, garantindo a possibilidade da aplicação de penalizações mais brandas aos/às referidos/as criminosos/as movidos pela “emoção” e pela “paixão”. Além disto, o novo Código resguardou, em seus artigos 138,139 e 140, a honra como direito e, portanto, passível de legítima defesa, instituindo-se, assim, a possibilidade da utilização da tese da legítima defesa da honra, alegando-se que a infidelidade da vítima havia afrontado os direitos do/a réu/ré, insultando sua honra e sua moral.

Por Magali Engel

Magali Engel é Professora associada da UERJ, Doutora em História Social pela UNICAMP e Pesquisadora Residente da Fundação Biblioteca Nacional

Publicado n'O Globo, em 22/07/2017

Discurso do historiador João José Reis na ABL

O historiador João José Reis foi contemplado com o Prêmio Machado de Assis, em 2017, pelo conjunto de sua obra. O prêmio é concedido pela Academia Brasileira de Letras e o seu discurso, proferido em 20 de julho de 2017, segue reproduzido abaixo. Recomendo a leitura atenta de cada uma de suas linha, tendo em vista o quanto o texto expressa muitas das nossas preocupações no presente. Confira:


Sou grato aos membros desta Academia por considerar minha obra merecedora do Prêmio Machado de Assis. Sendo um historiador da escravidão (embora não apenas) permitam-me imaginar a concessão do prêmio, quando a Academia cumpre 120 anos, como uma homenagem àqueles dentre os seus fundadores que, entre outros, militaram contra a escravidão — penso em Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e, muito especialmente, Machado de Assis, que dá seu nome a este laurel. Neto de escravos, Machado, além de abolicionista arguto, radical, embora discreto, foi a seu modo historiador da escravidão, no que acompanho um de seus mais destacados intérpretes, Sidney Chalhoub, também historiador da escravidão.
Outro historiador, o acadêmico Alberto da Costa e Silva, aqui presente, avaliou perfeita e concisamente o peso desse sistema de trabalho e modo de vida para o Brasil: “A escravidão foi o processo mais importante e profundo de nossa história.” Não podia ser diferente: durou perto de 400 anos, contra apenas 129 anos de liberdade; o tráfico transatlântico luso-brasileiro importou quase metade dos 11 milhões de suas vítimas; e o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão.  Ela deixou marcas indeléveis na sociedade que nasceu de seus fundamentos e ainda nos assombra com fantasmas de várias espécies – as desigualdades sociais e raciais, o racismo sistêmico, o racismo episódico, agora mais assanhado pelo anonimato da internet (já chamado “racismo virtual”), hoje o principal veiculo de pregação de todos os ódios, inclusive do ódio racial.
O Brasil precisará de esforço hercúleo para livrar-se desse passado que se recusa a passar. O principal caminho talvez seja mais informação, mais educação e ações afirmativas, umas entrelaçadas com as demais. Neste sentido, algumas medidas reivindicadas pelos movimentos negros foram adotadas nas últimas décadas. Entre elas, destacaria três: as cotas educacionais, o ensino da história afro-brasileira e a criação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira.
As cotas sociorraciais para ingresso nas universidades públicas já resultaram em mudança na cor dessas instituições, corrigindo em muitos casos a quase exclusividade branca nos cursos de maior prestígio – Medicina, Direito, Engenharia. Apesar de problemas aqui e ali, as cotas estão dando certo.
A introdução, no ensino fundamental e médio, de disciplina voltada para a história e a cultura afro-brasileiras, com ênfase na história da África, prometia uma equiparação a conteúdos sobre a história da Europa. Lamentavelmente, a disciplina desapareceu da nova Base Nacional Comum Curricular. E a África voltou a ser emparedada naquela acepção, denunciada por Cruz e Souza, de “África grotesca e triste, melancólica, gênese assombrosa de gemidos, África dos suplícios e das maldições eternas”, enfim, a África que predomina na grande mídia, refém de uma “história única”, na expressão certeira da escritora nigeriana Chimamanda Adichie. Torço pelo retorno da África às escolas.
Uma história de outras vozes está representada na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – a UNILAB, implantada a partir de 2011 como um gesto, ainda que acanhado, de solidariedade com um continente pilhado pelo tráfico luso-brasileiro de cativos. Essa instituição acolhe em suas salas de aula quase mil alunos africanos, mediadores qualificados de suas Áfricas com o Brasil, jovens que recebem pequena bolsa mensal de 530 reais. Pois a comunidade da UNILAB esteve ameaçada recentemente com o corte desse minúsculo item do orçamento nacional. Urge defender a UNILAB!
Políticas de inclusão racial, além do esforço para educar e informar todos os brasileiros sobre a imensa contribuição dos africanos e seus descendentes para a formação histórica e cultural do país, são, entre outras, medidas necessárias – não sei se suficientes – no combate ao legado nefasto da escravidão. Prefiro acreditar que seja produto da ignorância, e não desfaçatez, gestos de delinquência simbólica como batizar um restaurante chique de Senzala. Desejo, desejamos um país onde não seja preciso uma jovem negra empunhar, numa recente manifestação de rua, cartaz que dizia: “A casa-grande surta quando a senzala aprende a ler.”
Invocar a escravidão passou à ordem do dia. Com uma maioria de detentos negros (cerca de 60%) amontoados em espaço exíguo, nossas prisões são comparadas a senzalas onde não é servida a boa comida do restaurante Senzala. Comparação talvez injusta, porque a vida de seus escravos valia mais para o senhor do que parece valer a vida dos presos para os governos e a sociedade que, conivente, se cala. Preso não conta como cidadão, ele é preto, ou, se branco, é também preto de tão pobre – já acusou Caetano Veloso. A precariedade da cidadania, filha da desigualdade social e racial, tem sido vinculada ao passado escravista com insistência. Ainda na semana passada, Milton Hatoum escreveu em sua coluna de O Globo: “Quase quatro séculos de escravidão, e mais de um século de uma democracia manca, interrompida por várias ditaduras, só poderiam gerar uma sociedade extremamente desigual.”
Há, no entanto, outra dimensão inquietante nessa ordem de questões, que é quando, em vez de alegoria, a escravidão se insinua como dado de realidade efetiva ou em construção.
Como no passado, o ciclo começa com o tráfico – de trabalhadoras e trabalhadores sexuais, domésticos, industriais ou rurais. Imigrantes legais e ilegais são com frequência resgatados de porões insalubres nas grandes cidades, onde trabalham, moram e morrem. Na zona rural chovem denúncias de pessoas submetidas a trabalho (forçado, exaustivo, degradante) análogo à escravidão, matéria que hoje mobiliza pesquisadores e membros da Justiça do Trabalho numa discussão que já ganhou foro internacional.
A recentíssima reforma trabalhista causa temor a quem entende do assunto. Segundo o auditor fiscal do trabalho Luís Alexandre farias, “as mudanças criam condições legais e permitem que a legislação banalize aquelas condições que identificamos como trabalho análogo ao escravo”. E a respeito do princípio do negociado sobre o legislado, o procurador do MPT Maurício Ferreira Brito, que encabeça a Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo, advertiu sobre o perigo da escravidão voluntária: “A depender do que se negocie”, ele alertou, “você pode legalizar práticas do trabalho escravo.” Seria uma graça que este procurador fosse tão ouvido quanto os de Curitiba. Faltou falar da licença agora dada ao capital para empregar a mulher gestante em ambientes insalubres. Não me convencem as ressalvas da lei: se isso não é trabalho degradante, o que mais será?
Sobre a reforma trabalhista, aceitem um exercício de imaginação pessimista. Não resisto a comparar o “trabalho intermitente” ali contemplado com o sistema de ganho ou de aluguel nas cidades escravistas: no primeiro caso, o senhor mandava o escravo à rua para alugar ele próprio sua força de trabalho; no segundo, o senhor escolhia um locatário. Circulava o escravo ao ganho ou de aluguel entre um e outro e mais outro empregador, como cumprirá fazê-lo o trabalhador intermitente do novo Brasil. Um professor, por exemplo, poderá, como autônomo intermitente servir em vários estabelecimentos de ensino, um dia num, no dia seguinte mais um, depois ainda outro. Nascerá, assim, o professor ao ganho.
Some-se a recente Lei da Terceirização e alcançamos o quadro quase completo de precarização radical do trabalho. A terceirização agora vale para atividades fins. Ainda no setor do ensino, empresas que antes limitavam-se a fornecer empregados para atuar na segurança ou na limpeza, poderão doravante oferecer professores a escolas, faculdades e universidades, e fazê-los circular de acordo com a demanda do mercado. Nascerá, então, o professor de aluguel.
Por felicidade, já passou meu tempo de ser professor ao ganho ou de aluguel. O emprego em regime de dedicação exclusiva na Universidade Federal da Bahia deu-me a oportunidade de ser um professor pesquisador. À minha universidade e aos órgãos de fomento de pesquisa, em especial ao CNPQ, eu agradeço ter podido escrever a obra historiográfica agora premiada. Dela já falou, com generosidade, o professor José Murilo de Carvalho.
Queria apenas acrescentar que meus livros, artigos, capítulos em coletâneas etc, foram e continuam a ser escritos com paixão pelos temas de que tratam, sem o selo de garantia da objetividade perfeita exigida pelo positivista. Busquei, sim, a compreensão weberiana. No entanto, não permito que minhas inclinações ideológicas e minha utopias pautem as interpretações que faço dos processos, episódios e personagens sobre os quais escrevo. História panfletária, nem pensar! Me curvo às evidências que brotam dos arquivos, e elas não cessam de surpreender com um universo muito mais complexo do que caberia numa explanação fácil e porventura maniqueísta, que divida o mundo entre o herói e o bandido.
Meus livros são povoados de escravos que fogem de toda parte para toda parte, criam quilombos nas periferias da Cidade da Bahia ou nos mangues de Barra do Rio de Contas, se levantam em nome de Alá e de Ogum, mas nesses escritos também se encontram escravos que negociam com seus senhores um cativeiro menos opressivo. Escravos que querem e senhores que permitem a acumulação de bens e a compra da alforria. A maioria de meus personagens têm nomes, subjetividade, não são peças passivas da máquina escravista. Bilal Licutan, Luiz Sanin, Manoel Calafate, João Malomi, Francisco e Francisca Cidade, Zeferina, homens e mulheres à frente das revoltas escravas baianas. O alufá Rufino José Maria, liberto malê que virou cozinheiro de navio negreiro e pequeno traficante transatlântico de gente. Domingos Sodré, adivinho e curandeiro nagô que fornecia beberagens a escravos para amansar seus senhores, mas era ele próprio senhor de escravos. Manoel Joaquim Ricardo, dono de dezenas de escravos, liberto haussá que prosperou a ponto de ser contado entre os homens que formavam os 10% mais ricos de Salvador. E alguns outros mais…
Contudo, termino com um aviso aos navegantes: a ascensão social aconteceu para poucos escravos desembarcados ou nascidos no Brasil. A maioria morreu escravizada. No balanço final, fico com Joaquim Nabuco, que escreveu:
Não importa que tantos dos seus filhos espúrios tenham exercido sobre irmãos o mesmo jugo, e se tenham associado como cúmplices aos destinos da instituição homicida, a escravidão na América é sempre o crime da raça branca, elemento predominante da civilização nacional…
Reproduzido do Conversa de Historiadoras.