10 de novembro de 2009

A Onda - Um filme sobre o nazismo



Em tempos de um quase linchamento de uma estudante universitária da Uniban, nada me parece tão oportuno quanto o filme A Onda para analisar a psicologia das massas e o culto desenfreado da disciplina coletiva.

Mas não é exatamente o caso da universitária que me faz compartilhar aqui o referido filme. Estudando História Contemporânea com os meus alunos, tivemos recentemente aulas sobre os fascismos e o filme está entre as nossas atividades acadêmicas.

Desta forma, acho igualmente oportuno compartilhar um artigo publicado em 11 de outubro de 2009, por Renato Mezan, na Folha de S. Paulo:

Perigos da obediência

Teria o mês de setembro alguma afinidade secreta com a violência? Diante do número de matanças que ocorreram ou começaram nele, poderíamos brincar com a ideia: em 2001, os atentados de Nova York; em 1939, o início da Segunda Guerra; em 1970, o massacre dos palestinos na Jordânia (o "Setembro Negro"); em 1792, grassa o Terror em Paris, que deu origem aos termos "septembriser" e "septembrisade", significando "massacre de opositores" -e haveria outras a lembrar.


Nesse setembro de 2009, um filme -"A Onda" [em cartaz em SP]- e um livro -"LTI - A Linguagem do Terceiro Reich" [de Victor Klemperer, trad. Miriam Bettina Paulina Oelsner, ed. Contraponto] nos convidam a refletir sobre a facilidade e a rapidez com que a violência se alastra, fazendo com que pessoas comuns se convertam em sádicos ferozes.

O primeiro transpõe para a Alemanha atual um fato que teve lugar em 1967, na cidade de Palo Alto [EUA]. Querendo mostrar a seus alunos como o fascismo se apoderou das massas nos anos 1930, um professor põe em prática um "experimento pedagógico": durante uma semana, organiza com eles o núcleo de um movimento ao qual dão o nome de "Terceira Onda".

Sem lhes contar que ele só "existe" na escola, vai treinando-os com as técnicas consagradas pelo totalitarismo: exercícios de ordem unida, uniformes, adoção de um símbolo e de uma saudação etc. Os efeitos dessas coisas aparentemente inocentes não tardam a surgir: como num passe de mágica, o grupo adquire extraordinária coesão, que dá a cada integrante a sensação de ser parte de algo "grande" ou, pelo menos, maior que sua própria insignificância.

Aparecem também aspectos menos simpáticos: intolerância contra os que se recusam a participar, desprezo, ódio e logo agressões a supostos opositores (os alunos de outra classe, que estão estudando o anarquismo, passam a ser vistos como anarquistas, e portanto inimigos). Escolhido como chefe pela garotada, o professor se identifica com o papel; rapidamente, o "experimento" foge ao controle -dele e dos próprios integrantes- e termina em tragédia: na vida real, um rapaz perde a mão tentando fabricar uma bomba caseira -o que custou a Jones sua licença para lecionar- e, no filme... bem, não vou contar o desfecho.

Em "Psicologia das Massas e Análise do Ego", Freud desvendou os mecanismos psicológicos que nas "massas artificiais" criam a disciplina e o devotamento ao líder: instituindo-o no lugar do superego, os indivíduos que delas participam passam a obedecê-lo mais ou menos cegamente e, imaginando-se igualmente amados por ele, identificam-se uns com os outros, pois de certo modo são todos filhos do grande Pai.

Instrumentos Nesse processo, abdicam de sua capacidade de pensar por si mesmos; compartilhando a crença na doutrina proposta pelo chefe, que geralmente divide o mundo em bons (os adeptos da "causa") e maus (todos os demais), eles a transformam em instrumento de uma dominação capaz de os arrastar a atos que, se não fizessem parte do grupo, jamais teriam coragem de praticar.

Muito bem dirigido e interpretado, o filme mostra como a euforia de ser membro de algo supostamente tão "poderoso", e o desejo de agradar ao líder, vão dando margem a ações cada vez mais próximas da delinquência. Tudo se justifica em nome da "causa", que no caso é nenhuma: a "Onda" não tem conteúdo, a não ser ela mesma e uma vaga solidariedade entre seus membros, que se incentivam e protegem mutuamente.

Forças destrutivas

À medida que transcorre a semana, no íntimo dos adolescentes dão-se modificações de vulto. Por um lado, eles transferem seu entusiasmo juvenil para o movimento, que desperta neles qualidades até então adormecidas: mostram-se criativos, capazes de levar a cabo projetos que exigem organização e trabalho conjunto (como, por exemplo, a montagem de uma peça de teatro).

Por outro, a vibração dessa intensa energia como que dissolve os freios sociais e morais e libera forças destrutivas das quais não tinham consciência: ameaçam colegas, intimidam crianças, um rapaz esbofeteia a namorada que se recusa a participar do grupo, outro adquire um revólver, um terceiro tenta afogar um adversário no polo aquático...

Nas primeiras décadas do século 20, e em escala muitíssimo maior, os mesmos fenômenos ocorreram em várias sociedades europeias. Os mais graves tiveram lugar na Alemanha, cujo führer arrastou o mundo para uma guerra que deixou dezenas de milhões de mortos e refugiados. Muito se escreveu sobre por que os alemães aceitaram seguir um demagogo enlouquecido e por 12 anos aplaudiram suas iniciativas e seus discursos delirantes, que Victor Klemperer -o autor de "LTI"- compara aos "desvarios de um criado bêbado".

Entre os motivos que os levaram a isso, o analisado por ele se destaca como dos mais importantes: a manipulação da linguagem. O estudo da LTI -sigla de "Lingua Tertii Imperii", ou do Terceiro Reich- é uma das mais originais contribuições à compreensão do fenômeno totalitário. Examinando cartazes, livros, jornais, revistas, conversas ouvidas e discursos de dignitários do regime, Klemperer (irmão do regente Otto) mostra como uma ideologia absurda e cruel se entranhou "na carne e no sangue das massas".

Impostas pela repetição e pelo controle absoluto dos meios de comunicação, as frases e expressões nazistas foram "aceitas mecânica e inconscientemente" pelo povo alemão, passando a moldar sua autoimagem e a justificar a barbárie, pelo método simples e eficaz de a fazer parecer natural.

Não é possível, neste espaço, mais do que uma breve referência aos recursos de que se valeram Goebbels [o ministro da Propaganda no regime nazista] e sua corja para obter tão fantástico resultado. Numa prosa límpida, que a tradutora Miriam Oelsner restitui com fluidez e precisão, o autor vai desmontando os ardis que inventaram.

Seu livro revela como a criação de novas palavras, o uso desmesurado de abreviações e de superlativos, a mescla de tecnicismo "moderno" e apelo ao "orgânico", o emprego de estrangeirismos bem-soantes, mas intimidadores, a ênfase declamatória, o exagero, a mentira, a calúnia e, ao mesmo tempo, a pobreza monótona de um discurso calculado para abolir toda nuança e toda reflexão se combinam para produzir alienação.

Até as vítimas do regime empregam, sem se dar conta, termos e expressões da "língua dos vencedores"! No filme, temos vários exemplos do poder ao mesmo tempo mobilizador e mistificador da linguagem. Um deles é a explicação dada pelo professor para o exercício de marchar no lugar: "melhorar a circulação".

Ritmo acelerado

O bater dos pés em uníssono cria um efeito de homogeneidade: a energia posta na pisada se espraia por entre os alunos, fazendo-os sentir-se parte de um só corpo e capazes de grandes feitos. O ritmo se acelera, uma expressão beatífica aparece no rosto de alguns, os olhos brilham -alguma coisa está de fato circulando, uma exaltação crescente- e, sem se darem conta, rendem-se à manipulação de que estão sendo objeto.

(Em "O Triunfo da Vontade", Leni Riefenstahl utiliza a aceleração das respostas dos recrutas à pergunta "de onde você vem?" para sugerir que o movimento hitlerista está se expandindo irresistivelmente.) O que ambos -filme e livro- revelam sobre a capacidade do ser humano para obedecer sem questionar é confirmado por diversos experimentos científicos; para concluir essas observações, mencionemos o mais famoso deles.

Em 1961, por ocasião do processo Eichmann, Hannah Arendt falava da "banalidade do mal": o carrasco nazista não era um monstro, mas um homenzinho insosso como tantos que existem em toda parte.

O psicólogo Stanley Milgram decidiu por à prova a ideia de que, sob certas condições, qualquer pessoa pode agir como Eichmann: na Universidade Yale (EUA), convocou voluntários para o que ficou conhecido como Experimento de Milgram ("google it", caro leitor, e veja por si mesmo os detalhes do teste).

Em resumo, pedia aos "instrutores" que acionassem um aparelho de dar choques a cada vez que os "sujeitos" errassem na repetição de certas palavras. A voltagem iria num crescendo, atingindo rapidamente patamares que, era-lhes dito, poderiam causar danos irreversíveis ao cérebro. A máquina, é claro, estava desligada; do outro lado da parede, o ator que representava a pessoa sendo testada permanecia incólume, apenas gritando como se estivesse de fato sendo eletrocutado.

O objetivo do experimento não era avaliar a memória dele, mas até onde seriam capazes de ir os "instrutores". Para surpresa de Milgram, dois terços deles superaram o limiar além do qual o choque levaria a prejuízos irreparáveis.

Ao chegar ao nível perigoso, muitos se mostravam aflitos, mas cediam aos pedidos do psicólogo para prosseguir; mesmo cientes das consequências para o outro, a garantia de que nada lhes aconteceria bastava para continuarem a apertar os botões. O artigo em que Milgram discute sua experiência -cujo título tomo emprestado para estas notas- tornou-se um clássico da psicologia.

Ela foi reproduzida em outros lugares, com outros sujeitos, por outros cientistas -sempre com resultados próximos aos da primeira vez. A conclusão do psicólogo americano merece ser citada: "A obediência consiste em que a pessoa passa a se ver como instrumento para realizar os desejos de outra e, portanto, não mais se considera responsável por seus atos. Uma vez ocorrida essa mudança essencial de ponto de vista, seguem-se todas as consequências da obediência".

Outros experimentos, como o Experimento Prisional de Stanford, de 1971, confirmam os achados de Milgram e, a meu ver, também a análise de Freud sobre a submissão ao líder.

Nestes tempos em que, sob os mais variados pretextos, volta-se a solicitar nossa adesão a ideais de rebanho, impõe-se meditar sobre o que em nós se curva tão facilmente à vontade de outrem.

A "servidão voluntária" de que falava La Boétie nos idos de 1500 espreita nas nossas entranhas; já o sabia Wilhelm Reich, cujo alerta é hoje tão atual quanto em 1930: "O fascista está em nós".

RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP.

8 de novembro de 2009

Culpar a vítima: essa foi a estratégia

Culpe a vítima. Essa foi a estratégia utilizada pela Uniban para, vá lá, "reduzir os danos" provocados pelo "affaire" Geisy. Acho que não chamaram ninguém do Departamento de Marketing para a reunião que definiu a expulsão. Nem da Pedagogia, nem o professor de Ética (se é que têm um).

Chamaram apenas alguém do Jurídico, o qual concluiu que a agora ex-aluna violou o artigo 215 e seguintes do Regimento Interno da universidade, ao usar "trajes inadequados" e fazer "percursos maiores que o habitual".

Não é preciso pós-graduação em astrologia para perceber que o impacto da decisão não é dos mais auspiciosos para a universidade.

Conseguiram transformar o que já era um pesadelo de relações públicas naquilo que o pessoal das Letras Clássicas chamaria de "defaecatio maxima" -e que o pudor que faltou aos dirigentes da instituição me impede de traduzir.

A provável ação indenizatória que Geisy moverá contra a escola acaba de ter seu valor majorado. A Uniban também deve ter perdido potenciais candidatos a estudante. Eu, pelo menos, pensaria várias vezes antes de matricular meus filhos numa faculdade que busca proteger um bando de arruaceiros atacando o elo mais fraco.

A estratégia de culpar a vítima é bem conhecida. Se uma garota foi estuprada, ela é pelo menos parcialmente responsável por seu destino: de alguma forma, provocou o estuprador, seja por utilizar roupas insinuantes, seja por meio de atitudes libidinosas. Afinal, nada acontece "de graça".

A psicologia explica tal atitude como um autoengano que visa a nos manter em posição de controle: se eu não me comportar "mal" como a "vítima", não estou sujeito ao mesmo risco. Tal operação mental nos permite persistir na crença de que o mundo é um lugar justo. Não é, como a Uniban acaba de demonstrar exemplarmente.

Por HÉLIO SCHWARTSMAN

Publicado na Folha de S. Paulo, Caderno Cotidiano, em 8 de novembro de 2009.

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Subscrevo a análise de Hélio Schwartsman. De fato, não devem ter mesmo chamado o Departamento de Marketing para opinar no caso. A consulta deve ter sido feita ao Departamento Financeiro e a lógica que prevaleceu é a aquela que diz o seguinte: o cliente tem sempre razão. Entre expulsar uma aluna e desagradar um monte de alunos bárbaros e incivilizados, a Uniban pensou com a mão no bolso e fez a degola.

Se fosse uma instituição de ensino de verdade, teria no episódio uma oportunidade ímpar de transformá-lo em aprendizado, debatendo a questão da alteridade e da tolerância tão fundamentais nos dias que correm. Poderia aproveitar para propor uma reflexão aos alunos não só sobre ética, mas também sexualidade, gênero e sobre a cada vez mais difícil arte de viver em sociedade respeitando o outro.

A privatização desenfreada do ensino superior mostra os seus frutos amargos e indigestos...

Falta o Ministério da Educação se pronunciar.

1 de novembro de 2009

Por que a mídia grande não deu?

Covardia de Aécio Neves

Aécio Neves, o governador tucano de Minas Gerais, que luta para ter o jogo inaugural da Copa do Mundo de 2014, em Belo Horizonte, deu um empurrão e um tapa em sua acompanhante no domingo passado, numa festa da Calvin Klein, no Hotel Fasano, no Rio.

Depois do incidente, segundo diversas testemunhas, cada um foi para um lado, diante do constrangimento geral.

A imprensa brasileira não pode repetir com nenhum candidato a candidato a presidência da República a cortina de silêncio que cercou Fernando Collor, embora seus hábitos fossem conhecidos.

Por Juca Kfouri às 12h09

Postado no blog de Juca Kfouri em 1/11/2009.

Punição da pobreza

EUA E EUROPA OCIDENTAL VÊM ADOTANDO MEDIDAS POLICIAIS E JURÍDICAS PARA TENTAR LIDAR COM OS EFEITOS PERVERSOS DAS POLÍTICAS NEOLIBERAIS


Por ADALTON MARQUES

Desde há muito tempo, os noticiários informam sobre a chamada "guerra entre os comandos" e sobre as operações policiais em áreas tidas como críticas -assim chamadas pela intelligentsia policial- no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Nas últimas semanas, essa "intermitente guerra duplamente articulada" ganhou, novamente, visibilidade na grande mídia. Era a vez do Rio de Janeiro. Os jornais televisivos transmitiram as imagens de um helicóptero da Polícia Militar "pegando fogo" em pleno voo, instantes após ter sido alvejado por projéteis disparados por algum poderoso armamento, empunhado pelas mãos de algum "criminoso".

Também assistimos a cenas de tiroteios, de pessoas ensanguentadas diante das câmeras, de choro, de desespero. No dia 25 passado, as forças públicas já contabilizavam mais de 40 mortos e outros tantos feridos.

Sem bem-estar

Não há dúvidas de que se está no calor de uma hora que já se alonga por anos... No olho de um furacão que ainda não conhecemos bem, nem sua natureza nem sua extensão, tampouco sua intensidade. É preciso um exame meticuloso. Sobre as operações policiais, a crescente preocupação governamental com segurança aparece como uma importante pista para os analistas que se esforçam na produção de conceituações que respondam aos problemas impostos pelos acontecimentos em tela.

Nessa senda, é indispensável considerar os estudos de Loïc Wacquant, com destaque para os livros "Os Condenados da Cidade" (Revan, 2001), "As Prisões da Miséria" (Jorge Zahar, 2001) e "As Duas Faces do Gueto" (Boitempo, 2008). O autor vem detectando um amplo processo de transformação nas sociedades avançadas do capitalismo ocidental -mas também na América Latina.

Consiste, fundamentalmente, na realização daquilo que denomina "punição da pobreza", conjunto de medidas elaboradas para administrar os efeitos das políticas neoliberais, decorrentes do abandono sistemático das regulamentações de bem-estar social.

Mutação histórica

Sobre os rejeitados da sociedade de mercado intensificam-se as políticas públicas de polícia, jurídicas e prisionais, seja como forma de substituição (no caso dos EUA), seja como forma de suplementação (no caso da Europa ocidental) das políticas de educação, saúde, seguridade e habitação.

Em suma, Wacquant fala de uma mutação histórica na qual, simultaneamente, processa-se o fenecimento do Estado de bem-estar social e a prosperidade do Estado penal.

Procedendo desse modo, Wacquant faz um vigoroso deslocamento em relação às noções de Estado neoliberal correntes durante a década de 90. Pois, ao invés de voltar-se para os conceitos prontos, dando as costas às mutações históricas, o autor se volta para as relações que atravessavam esses Estados.

Ele mostra que suas constituições ocorrem na própria operação das estratégias governamentais (aproximando-se fortemente dos ganhos teóricos fornecidos por Michel Foucault em suas já clássicas análises sobre o Estado). É preciso fazer o mesmo para analisar os casos do Rio de Janeiro e de São Paulo: deslocar o diagnóstico de Wacquant em proveito do que vem sendo observado.

Afinal, os modelos de substituição e de suplementação das políticas de Estado de bem-estar social pelas políticas de Estado penal não parecem pertinentes para pensar o Brasil, que nunca chegou a consolidar algo parecido com um Estado de bem-estar.

Com relação às chamadas "guerras entre comandos", as melhores pistas têm sido dadas por pesquisadores que se debruçam sobre esses coletivos sem utilizar os tradicionais vieses jurídicos. Evitam, assim, tornarem-se analistas estatais a observar as degenerescências (ou exotismos) de um mundo não oficial.

Estudo de relações

Merecem destaque o livro "Um Abraço para Todos os Amigos - Algumas Considerações sobre o Tráfico de Drogas no Rio de Janeiro", de Antônio Rafael Barbosa (Eduff, 1998), a dissertação "Junto e Misturado - Imanência e Transcendência no PCC", de Karina Biondi (Universidade Federal de São Carlos, SP, 2009), e a tese "Fronteiras de Tensão - Um Estudo sobre Política e Violência nas Periferias de São Paulo", de Gabriel Feltran (Universidade Estadual de Campinas, 2008).

Nesses escritos, em vez de nos depararmos com os péssimos conceitos prontos "crime organizado", "criminalidade organizada", "Estado paralelo", "sindicato do crime", "máfia" e, ainda, com a improdutiva divisão binária entre "trabalhadores" e "criminosos", encontramos uma meticulosa atenção às relações que atravessam os objetos estudados. Essas duas frentes analíticas são imprescindíveis para trazer para fora do inominável esse estado de coisas intolerável.

ADALTON MARQUES é mestrando em antropologia social na USP.

Artigo publicado no Caderno Mais, da Folha de S. Paulo, 1º de novembro de 2009.

Honduras e o mito da democracia na América Latina

A crise porque passa Honduras a partir do golpe que depôs Manuel Zelaya tem ensejado algumas importantes reflexões sobre a democracia na América Latina. Alguns analistas destacam a relevância do episódio em questão sugerindo que o mesmo destoa de uma suposta consolidação do regime democrático neste vasto continente latino-americano. E justamente por isto tem despertado tanto interesse na opinião pública.


Há, contudo, um pressuposto equivocado nessas reflexões: a idéia de que a democracia estaria hoje consolidada entre nós, na América Latina. Vejamos alguns dos motivos deste equívoco.

Num pequeno livro intitulado Ditadura militar, esquerdas e sociedade (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000), o historiador Daniel Aarão Reis questiona a tese – que já se tornou lugar-comum quando se discute o período histórico da ditadura militar no Brasil – de que a sociedade brasileira viveu a ditadura como um pesadelo que é preciso exorcizar, ou seja, a sociedade não tem, e nunca teve, nada a ver com a ditadura.

Segundo esta tese, a sociedade brasileira baniu de uma vez por todas o fantasma da ditadura militar e, afinal, a democracia venceu o autoritarismo. Mas como fica essa tese exposta diante dos questionamentos que Reis formula:

- Se a ditadura foi um pesadelo, foi demonizada, como explicar que não tenha sido escorraçada?

- Como explicar uma anistia recíproca, que alcançou torturados e torturadores numa mesma lei?

- Como explicar que permaneçam com tanta força lideranças e mecanismos de poder preservados e/ou construídos no período da ditadura, pela e para a ditadura?

- Como explicar inúmeras continuidades entre as trevas da ditadura e as luzes da democracia (o latifúndio, o poder dos bancos, a mídia monopolizada, os serviços públicos deteriorados da saúde e da educação, a dívida interna e externa, José Sarney, Delfim Neto e tantos outros)?

- Como explicar a vitalidade da cultura política autoritária tantos anos depois de encerrada a ditadura?

- Por fim, como explicar o fato de que “a ditadura fez-se democracia, como um parto sem dor, sem grandiloqüência ou heroísmo, sem revolução ou morte d’homem”?

Ainda que a sociedade tenha se reconfigurado como uma totalidade que se opôs sempre e maciçamente à ditadura, os questionamentos propostos acima nos levam a perceber o quanto a democracia está por ser construída.

O golpe que deu origem à ditadura não foi apenas militar, contou também com o apoio expressivo de parte da sociedade civil. Essa memória, como ferida aberta, desperta incômodas inquietações que é preciso revisitar.

Outra razão pela qual a democracia permanece um mito entre nós também pode ser extraída do mesmo livro já citado. A ditadura foi resultado do medo. “Medo de que as desigualdades sociais fossem questionadas por um processo de redistribuição de renda e de poder” (p. 73). A maior obra da ditadura talvez tenha sido justamente a de manter e consolidar essas desigualdades. E esse questionamento continua provocando medo. Afinal, não existe democracia onde há desigualdade.

E a desigualdade continua aí, à espreita, a nos desafiar. Diante de profundas desigualdades temos medo do caos ou do retorno a formas autoritárias. Para além do embate travado em Tegucigalpa entre Zelaya e o golpista Micheletti, hoje esse é o dilema vivido em Honduras. Amanhã onde será?

Publicado por Denilson Botelho no Fazendo Media, em 31/10/2009

31 de outubro de 2009

O turista e o peregrino

O texto que segue abaixo é de autoria de Rosely Sayão, que mantém um interessante blog no UOL. Trata-se de uma rica reflexão sobre pais e filhos e sobre a vida e o modo como vivemos. Foi publicado em 29/10/2009.
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O mundo em que vivemos afeta profundamente a maneira de ser e de viver de cada um de nós e nem sempre nos damos conta disso. As decisões que tomamos diariamente, as escolhas que fazemos, as interpretações que damos aos acontecimentos são influenciadas pelo contexto social e cultural.


Isso quer dizer que os estilos de vida que adotamos também estão marcados pela maneira como o mundo se constitui.

As metáforas ajudam a compreender melhor as transformações que ocorreram e que estão em curso no nosso modo de viver. Zygmunt Bauman, pensador contemporâneo, construiu uma que ajuda a dar sentido e a interpretar a diferença entre o modo de estar no mundo décadas atrás e agora. Para isso, ele contrapõe as imagens do peregrino e do turista.

O peregrino, figura característica de um mundo em extinção, é quem escolhe viajar em busca de algo para melhorar ou dar sentido à sua vida. Em sua árdua e longa jornada, que não tem prazo para terminar, ele não tem pressa e seu trajeto importa mais do que sua chegada, que ele não sabe quando nem onde ocorrerá.

Já o turista -figura marcante dos tempos atuais- viaja por diversão e com data marcada para voltar, escolhe seu destino por curiosidade ou influência do mercado de consumo do lazer e seu trajeto é apenas o modo de chegar a seu destino. Qualquer contratempo nos planos do turista é vivido de forma dramática. Vou usar essa metáfora para compreender um pouco as mudanças dos papéis de mãe e de pai na atualidade.

Hoje, mal um filho nasce e os pais já se preocupam com o fim de sua jornada, que equivale a entregar o filho ao mundo para que ele viva por conta própria e com autonomia. Desse modo, pais de crianças muito pequenas procuram escolas que as preparem para o vestibular e o Enem, enchem seus filhos de atividades que os ajudem a enfrentar o futuro mercado de trabalho, programam com antecedência e em pormenores sua vida para realizar tudo o que planejaram para o filho.

Pais de crianças que resistem -por seu modo de ser- a tais planos frustram-se, sentem-se fracassados, usam de muitos artifícios para tentar resgatar o caminho originalmente traçado ou desistem precocemente de sua viagem. Preparar o filho para o futuro tornou-se, por força das pressões externas, missão mais importante do que conhecer e ouvir o filho, estar com ele, construir um vínculo afetivo. Essa imagem é muito parecida com a do turista, não?

Há pais que não pensam no fim de sua jornada a não ser quando constatam que ela terminou. Sabem que seu trajeto será longo e árduo, não têm pressa, encaram as vicissitudes como parte da caminhada, ligam-se mais ao filho que têm do que àquele que ele será. Esse modo de se relacionar com a paternidade tem mais relação com a imagem do peregrino, portanto.

É possível escolher ser mais peregrino na vida com os filhos do que turista, mesmo com as influências que sofremos. Para isso, entretanto, é preciso refletir e resistir a muitas pressões do mundo em que vivemos.

30 de outubro de 2009

Evidências do não-jornalismo

Marco Aurélio Melo foi um dos jornalistas demitidos da Globo em 2006, naquela mesma leva de Luiz Carlos Azenha e Rodrigo Vianna. Os três, vez por outra, denunciam as maracutaias que testemunharam. Nesse texto abaixo, Marco oferece um exemplo claro como a luz do sol sobre a impossibilidade de as corporações de mídia praticarem Jornalismo:

http://maureliomello.blogspot.com (vale a pena acessar esse endereço, pois nele estão relatadas inúmeras histórias como a abaixo descrita)

Vocês pediram, então aí vai mais uma da série faz de conta. Era uma reportagem de fôlego. O ponto de partida: uma pesquisa, obtida com exclusividade, em 2004. Estabelecia uma relação direta entre abuso de álcool, sobretudo de cerveja, e índices de violência, criminalidade e saúde pública. Produtores foram a campo e coletaram flagrantes de ameaças, brigas e confusões, principalmente em bares que funcionam à noite nas regiões mais violentas de São Paulo, à época: Jardim Ângela, Capão Redondo, Parque Santo Antônio e alguns bairros da Zona Leste. Depois de editada, era o tipo de matéria que serviria para abrir o telejornal antes da novela, com o apresentador dizendo, de voz cheia: – Exclusivo! Nossos repórteres mostram como o abuso de álcool se transformou na maior doença do país. Mas o vídeo tape foi vetado para a exibição, foi para o freezer, no jargão. No diálogo que um dos produtores travou com o Guardião da Doutrina da Fé, ouviu o seguinte argumento: – Não podemos exibir uma reportagem assim, sabendo que a indústria de bebidas é a maior anunciante da casa e dona de cotas de patrocínio dos principais eventos esportivos que transmitimos. É um tiro no pé! E vai que algum deputado ‘maluco’ resolva propor uma lei que proíba a propaganda de bebida na TV? Já não basta o que eles fizeram com a indústria de cigarros… Um exemplo cristalino de como um interesse público pode dar lugar a interese comerciais de certas organizações, e pior, de como a imprensa pode deixar de atender às exigências de uma sociedade que clama por paz. Agora, mesmo que fosse ficção, que falta faz um deputado ‘maluco’, desses que legislam de olho nos interesses da nação, e não nos de um grupo econômico qualquer? O álcool é hoje a principal causa de violência doméstica (disse, ouviu rainha? violência do-més-ti-ca), pedofilia e outros crimes violentos, como assassinatos. Mas acho que nossa sociedade ainda não está preparada para ‘Apreciar com Moderação’ a concessão de serviço público. Que pena…

Por Marcelo Salles, 29.10.2009

Extraído o Blog do Fazendo Media

27 de outubro de 2009

Detetives do Passado

Hoje reproduzo aqui um convite das colegas Keila e Anita, pelo fato de tratar-se de louvável iniciativa no sentido de aproximar o meio acadêmico e as salas de aula do ensino médio e fundamental:




Está no ar o site "Detetives do Passado", projeto de atividades de investigação e pesquisa escolar. O projeto, integralmente financiado pela FAPERJ, consiste na realização de atividades investigativas, baseadas na internet, para serem realizadas por alunos da Educação Básica, tanto no ensino fundamental quanto no médio. Nesta primeira fase, realizamos 8 atividades, todas com o tema Escravidão no século XIX. Estamos planejando agora a sequencia do projeto, com desenvolvimento de atividades mais elaboradas do ponto de vista tecnológico (com inclusão de recursos de audio e vídeo) e também sobre outros temas.

Gostaríamos muito de saber a opinião de vocês a respeito do projeto, e também de contar com o apoio de vocês para divulgá-lo em suas listas. O projeto está disponível no endereço http://www.historiaunirio.com.br/numem/detetivesdopassado/ . Além do site, criamos o blog http://detetivesdopassado.blogspot.com/ para fomentar o intercâmbio de idéias entre pessoas interessadas em discutir metodologia do ensino de História.

Como o acesso a internet ainda é difícil em muitas regiões e escolas, fizemos uma edição de CDs para serem distribuídos às escolas. Se você souber de alguma escola/secretaria interessada em receber o CD, entre em contato!

Cordialmente,
Keila Grinberg e Anita Almeida
História - UNIRIO

23 de outubro de 2009

II Colóquio de Pesquisa em História na UFPI

Dia 11.11.09 (Quarta – feira)

08:00 às 12:00 – Credenciamento

14:00 às 16:00 – Conferência de abertura

Participantes:
Prof. Dr. Pedro Vilarinho Castelo Branco (Diretor do CCHL)
Prof. Dr. Edwar Castelo Branco (Vice-reitor)
Prof. Dr. Américo Souza (Coordenador do curso)
Prof.ª Dra. Áurea Paz Pinheiro (Professora convidada)
Eduardo Machado (Mediador)

14:00 às 16:00 – Linha de Pesquisa: História e Trabalho

Participantes:
Prof. Dr. Solimar Oliveira e Graduandos

18:00 às 20:00 – Mesa redonda 01:
Ensino de História fora e dentro da academia

Participantes:
Prof. Dr. Américo Souza
Prof. Me. Maureni Vaz (UESPI)
Prof. Esp. Braz de Sousa Carvalho (Ensino Secundário)
Jéssica Da Mata (Mediadora)

Dia 12.11.09 (Quinta – feira)

14:00 às 16:00 – Linha de Pesquisa: História, Cultura e subjetividade

Participantes:
Prof. Dr. Edwar Castelo Branco e Graduandos

16:00 às 18:00 – Linha de Pesquisa: História e Movimentos Sociais

Participantes:
Prof.ª Maria do Socorro Rangel e Graduandos

18:00 às 20:00 – Mesa redonda 02:
História e perspectivas da esquerda

Participantes:
Prof. Me. Fonseca Neto
Prof. Dr. Denílson Botelho
Prof. Esp. Luís Carlos Puscas
Leôndidas Freire (Mediador)

Dia 13.11.09 (Sexta-feira)

14:00 às 16:00 – Linha de Pesquisa: História e Religiosidade

Participantes:
Prof.ª Dra. Áurea Paz Pinheiro e Graduandos

16:00 às 18:00 – Mesa redonda 03:
Historiografia Piauiense: As relações entre cultura, cidade e memória

Participantes: Prof.ª Dra. Teresinha
QueirozProf. Dr. Alcides Nascimento
Vinícius Alves (Mediador)

18:00 às 20:00 – Conferência de encerramento:
O Futuro da história na academia
Participantes: Prof.ª Maria do Socorro Rangel

20:00 - Atividade cultural

Local: CCHL/UFPI

20 de outubro de 2009

O centenário de Isaías Caminha: uma voz do “quilombo” desmascarando a imprensa


Ao descobrir que palavras são também ações, muita gente passa a cultivar o sonho de fazer das letras seu ofício, sua profissão. É desta forma que nascem, muitas vezes, vocações para o jornalismo e a literatura. Escrever apresenta-se como uma forma de intervir no mundo, participar, interferir na realidade. É ao mesmo tempo o exercício da cidadania e da paixão.

Tudo indica que o fascínio pela liberdade de expressão, tanto no jornalismo como na literatura, atravessa o tempo e constitui um território pelo qual nota-se um sempre vivo e renovado interesse, especialmente para os jovens de todas as idades. Esta é uma possível explicação para a efervescência que tomou conta da internet, através da qual temos conhecido uma vigorosa mídia alternativa e contra-hegemônica, blogs e outros.

Nada melhor para celebrar esse fascínio do que lembrar o centenário da publicação de Recordações do escrivão Isaías Caminha, um romance que sintetiza esses anseios literários e retrata as históricas frustrações que temos vivido nesse campo da informação e do jornalismo. Ao publicá-lo, em dezembro de 1909, Lima Barreto estreava na literatura brasileira e sacudia a imprensa carioca do início do século XX, abalando reputações e desmascarando as redações farsescas que naquele período fabricavam celebridades.

Quem se dispuser a conhecer as desventuras de Isaías Caminha, certamente há de se perguntar: o que de fato mudou de ontem para hoje? É notável a atualidade de Lima Barreto! E não pense o leitor incauto que a redação d’O Globo a que o escritor se refere era a do jornal impresso de mesmo nome que hoje circula entre nós. Esse bem pode ser um caso em que a realidade imitou a ficção, pois embora o jornal de Irineu Marinho tenha nascido somente em 1925, também especializou-se – hoje com o auxílio da TV e outras mídias – em fabricar falsas celebridades e defender certa plêiade de políticos e banqueiros, a serviço do capitalismo perverso que sempre nos vilipendiou – estratégia que Lima Barreto insistia em denunciar.

Os “intestinos” do jornal retratado naquele romance eram na verdade do Correio da Manhã, dirigido então por Edmundo Bittencourt. Ainda que desprezado pela crítica literária da época, a força de Recordações pode ser percebida através do próprio veto que o livro sofreu. Com a publicação do livro, o nome de Lima Barreto foi proscrito das páginas do jornal de Bittencourt. Isso não impediu, como relata o biógrafo Francisco de Assis Barbosa, que a tentativa de adivinhar quem tinha servido de inspiração para cada personagem se tornasse assunto freqüentado animadamente nas rodas intelectuais e nos bares da capital republicana nos meses seguintes ao lançamento.

Mal comparando, seria como imaginar um romance de um jovem e estreante escritor que ousasse ambientar sua trama desmascarando as engrenagens internas e ocultas que regem o funcionamento das organizações Globo, do grupo Abril ou outro oligopólio qualquer da mídia tupiniquim. Quem ousaria ao menos comentar o livro? Que espaço ele teria na mídia?

A força de Isaías Caminha está na temática que aborda – o mundo das letras e do jornalismo – mas também no seu criador. Lima Barreto viveu boa parte de sua vida na periferia, no subúrbio do Rio de Janeiro, o qual talvez nenhum outro escritor dessa época conhecesse tão bem quanto ele. Apelidara sua casa de “Vila Quilombo”, afirmando em seu diário que isso era uma forma de implicar com Copacabana. Mas em plena era pós-abolição, o apelido sugere a concepção do lar como um distante refúgio a partir do qual realizou com coragem e liberdade o sonho de tornar-se um literato. Sugere ainda que os subúrbios, mesmo diante da extinção formal da escravidão, insistiram e insistem em abrigar a população brasileira mais pobre e negra, que fez e faz das periferias um vasto “quilombo” fora de época.

Assim como deu vida a Isaías Caminha, Lima Barreto ainda ecoa, cem anos depois, o mesmo fascínio capaz de fazer surgir muitos outros jovens talentos negros das periferias desse Brasil, que ninguém conseguirá jamais calar.
Por Denilson Botelho
Publicado no Fazendo Media em 16/10/2009.

13 de outubro de 2009

Ainda o Canal Brasil

Em contato com Paulo Mendonça, diretor do Canal Brasil, tomei conhecimento do seu empenho em negociações junto às operadoras de TV por assinatura no sentido de migrar o canal para os pacotes básicos e, portanto, mais acessíveis. Contudo, até agora tais negociações não frutificaram em resultados concretos.
Segundo Mendonça, "O conceito corporativo de pacote de filmes nos atrela aos grupos de canais (HBO e Telecines) dos estúdios americanos, numa relação que tem se mostrado perversa para a visibilidade e alcance do Canal Brasil".
Também não têm tido sucesso as negociações junto às empresas de telecomunicações (Embratel, Telefônica, Oi) que começarão a operar no setor de TV por assinatura. Estas sequer demonstraram interesse em carregar em qualquer de seus pacotes um canal como o Canal Brasil. Fica patenteado desta forma um notório desinteresse pela cultura brasileira, permeado de grotesca insensibilidade.
Custo a perceber onde está o caráter público dessas concessões. Será que ao adquirirem essas concessões, estas empresas não têm nenhum outro compromisso com o público, a não se o de arrancar lucros fabulosos dos seus assinantes?

10 de outubro de 2009

Por que pagar para ver?

Pouquíssimas vezes consigo fixar a minha atenção nos canais da TV aberta no Brasil. E sempre me irritou na TV por assinatura ter que pagar por um monte de canais que eu não tenho o menor interesse em assistir. Além disso, há uma certa perversidade nos pacotes montados pelas operadoras – ou seria operadora desde que Sky, DirecTV e Net são tudo a mesma coisa? O Canal Brasil, por exemplo, não consta dos pacotes mais baratos e exatamente por isso nem sempre tive a oportunidade de assisti-lo. Nos últimos meses, graças a uma “promoção” da operadora de TV a cabo aqui em Teresina, voltei a ter acesso ao referido canal.

Retomar a experiência de espectador do Canal Brasil desperta em mim uma inquietação: por que um canal de TV como este está exilado nas operadoras de TV por assinatura? Por que um canal que trata 24 horas de arte, cultura, cinema, teatro e literatura brasileira continua sendo servido como um biscoito fino para a classe média refestelada em seus confortáveis sofás? Por que supõem que o povo não teria interesse em se ver na telinha mágica da TV? Por que acham que o Brasil não quer ver o Brasil?

Não entendo porque um canal como este não está acessível em todos os cantos do país. Enquanto Globo, Bandeirantes, Record, SBT e Rede TV entopem suas programações de lixo importado e nacional, o Canal Brasil, se exibido fosse em rede nacional gratuita prestaria enorme serviço a esta nação pelo simples fato de mostrar a todos nós o que somos capazes de produzir no cinema brasileiro. Seria um enorme estímulo ao resgate de nossa auto-estima, sem contar o efeito multiplicador de fomentar o desejo de se produzir mais e mais cinema sobre a nossa cultura e a nossa realidade.

E tem mais, não é só cinema que o canal exibe. Há algum tempo me parece que eles deram uma guinada – meu bolso de professor não me permitiu acompanhar sempre este canal – e abriram espaço para produtoras variadas veicularem seus programas no canal. O resultado tem sido extraordinário, pois por conta disso é possível ver, por exemplo, um programa chamado Espelho, em que o ator negro Lázaro Ramos entrevista o cantor e compositor negro Seu Jorge. Andando pelas ruas do centro do Rio, Seu Jorge conta a Lázaro sua história de vida, do irmão assassinado na periferia do Gogó da Ema, do período em que viveu como sem-teto, vagando pelas ruas até descobrir o teatro, a música e o cinema, superando seus próprios complexos de brasileiro negro, pobre e discriminado.

O canal também abre espaço para a produção cinematográfica da América Latina, para a música – como o genial Zoombido de Paulinho Moska -, para o originalíssimo e cativante Swing de Domingos de Oliveira e Priscila Rosembaum, e tantos outros criativos programas nacionais sem sensacionalismo barato, sem apelação. Por que nada disso é servido ao povão no mesmo horário nobre em que a estupidez e a desinformação campeiam na famigerada TV aberta.

Nenhuma emissora aberta cobriu, por exemplo, o Festival de Cinema do Rio, o FestRio. Pois no Canal Brasil foi possível assistir um jornal inteiro de meia hora sobre o festival, os filmes exibidos, as premiações, seus diretores e tudo mais. Eles falam a nossa língua fazendo cinema brasileiro, mas poucos tiveram a oportunidade de se informar sobre isto. Afinal, o Jornal Nacional é feito pensando no padrão Homer Simpson de telespectador, não num brasileiro normal como você, eu e tantos outros.

Já passamos da hora de rever esse sistema de concessões públicas dos canais de televisão. Essa renovação praticamente automática das concessões não abre espaço para a sociedade discutir e questionar o que quer ver na tela da sua TV. Não viveremos numa democracia enquanto não existir essa liberdade de escolha. É obra da nossa geração jogar no lixo esse sistema de concessões públicas que de público nada tem, já que a sociedade não pode discutir o desserviço que a Globo e demais empresas vêm prestando à cultura e à educação deste país.

Eu quero assistir a uma programação como a do Canal Brasil sem ter que pagar - e pagar caro - por um pacote de TV por assinatura que me disponibiliza um monte de lixo televisivo. Não podemos continuar tratando um canal que exibe a cultura brasileira como um privilégio de alguns poucos assinantes num país de milhões de habitantes. Se a TV tem compromisso constitucional com a educação e a cultura nacional, ninguém cumpre melhor esse papel do que este canal. O Brasil tem direito ao Canal Brasil!

Por Denilson Botelho

Observação: Poucas vezes publico aqui o que escrevi, mas o texto acima é de minha autoria.